CIÊNCIA ANIMAL!

Meu cachorro come cocô? E agora?

por Grupo de Estudos Científicos - GEC - Marina Bastos, Patrícia Tsapatsis, Tatiana Moreno
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O QUE É COPROFAGIA

Seu cachorro está comendo cocô? Esse hábito nada comum entre humanos, pode estar bem presente na vida de alguns tutores e seus cães, e é justamente por isso que resolvemos nos debruçar sobre o assunto e trazer aos leitores o que há de mais recente sobre o tema.

Por definição, coprofagia "é um comportamento ingestivo que compreende o consumo de fezes", ou seja, o cão come as próprias fezes ou até as fezes de outros animais.

Em algumas espécies (como roedores, leitões, potros e primatas não-humanos, conforme indicado neste estudo), esse comportamento, até então entendido como "anormal", existe e em alguns casos mostrou-se como sendo uma aprendizagem social. Um estudo conduzido em Chicago analisou os hábitos de chimpanzés (tanto em cativeiro, quanto na selva) e mostrou que a coprofagia pode ser um comportamento aprendido entre a espécie e não algo que poderia demonstrar um sinal de estresse em animais que vivem em cativeiro, como se pensava há algum tempo.

Nos cães, esse hábito é mais comumente observado em filhotes, que com o decorrer da idade e desenvolvimento, tendem a parar. Além disso, ele é também observado na fêmeas que acabaram de ter filhotes, que comem as fezes dos recém-chegados no intuito de manter o ambiente deles mais limpo. Mas em alguns casos, esse comportamento acompanha os cães inclusive na idade adulta. E quais podem ser os motivos?

CAUSAS

Sempre que temos alguma questão comportamental com nosso pet, é bom levá-lo ao veterinário para exames. Até porque alguns estudiosos associaram a coprofagia à deficiência de nutrientes, em especial a tripsina ou até a alterações gastrointestinais. Ela também foi associada à deficiência de tiamina e lesões da amígdala. Sendo assim, é importante levar o seu pet ao veterinário para checar se está tudo bem com a saúde dele, mas isso não impede que seja iniciado o treino de modificação comportamental paralelamente, além de de seguir investigando outras causas, como veremos a seguir.

Quem já fez dieta sabe como é a sensação que fica no estômago, não sabe? Então… Para alguns cães mais gulosos, uma dieta restritiva pode gerar uma sensação de fome e, como eles não conseguem abrir a geladeira como nós, humanos, as fezes podem ter esse papel. Além disso, um estudo conduzido nos EUA correlacionou a coprofagia com os cães mais gulosos, o que nos leva a pensar que o apetite elevado tem uma grande relação com o comportamento de procurar alimento e, para alguns cães, esse alimento pode vir na forma de fezes.  

Uma outra causa, analisada principalmente pelos estudiosos do comportamento, entende que o tédio, associado à falta de exercícios, pode levar o cão a ingerir as fezes. E quem gosta de ficar o dia todo sem fazer nada, não é mesmo?

Além disso, cães tendem a ser muito observadores e podem entender que seus tutores estão superestimando as fezes quando os veem recolhê-las assim que foram feitas, fazendo com que sintam a necessidade de competir por elas. Como a forma que eles conhecem para "pegar" esse objeto valioso é com a boca, pegam e acabam ingerindo para não perder a disputa. Por isso, é recomendado que as fezes sejam recolhidas longe do olhar atento dos nossos animais de estimação.

Um outro motivo que pode parecer um tanto incomum para alguns tutores, mas que possui uma lógica evolutiva é que os cães podem ter herdado esse comportamento do lobos. Vamos entender melhor: supõe-se que os lobos comiam as próprias fezes para evitar que parasitas se desenvolvessem e pudessem contaminar toda a alcatéia. Sendo assim, as fezes eram consumidas em até 2 dias após o “ato”. Um estudo conduzido na Califórnia pesquisou os hábitos dos cães coprofágicos e viu que eles preferem consumir as fezes frescas, feitas no máximo há 2 dias. Isso poderia justificar  a hipótese de que o hábito de comer as fezes vem de longa data.

Você acha isso estranho? E se disséssemos que alguns cientistas estão pesquisando uma espécie de transplante de “cocô” para curar infecção gástrica em humanos? Neste estudo, os pesquisadores encontraram uma eficácia de 85% no tratamento de infecções gastrointestinais em humanos utilizando as cápsulas de fezes, contra 20% utilizando o tratamento convencional. Mas calma, não estamos dizendo que devemos tratar nossos cães com fezes, somente que a ingestão de fezes, por mais que pareça um comportamento horrível, pode ter consequência benéficas para a saúde em determinadas situações.

Por fim, é importante que qualquer tutor que tenha um cão coprofágico saiba que esse sintoma pode ser um grande sinalizador do nível de estresse e ansiedade do animal. Um estudo conduzido na Holanda mostrou que cães que vivem sob estresse (e eles viram isso naqueles que foram colocados sob restrição social e espacial) podem demonstrar um comportamento coprofágico. Lembram também que falamos que os cães podem ingerir as fezes por falta de atividade (seja ela física - passeio, brincadeiras ou cognitiva - ou mental - exercícios que estimulem as habilidades de memória, atenção e etc.)? Sendo assim, em alguns casos, esse sintoma é  muito importante para um diagnóstico e tratamento bem mais amplos e que podem levar a uma grande diminuição do comportamento. Além disso, ele pode indicar se estamos ou não no caminho certo, caso o comportamento regrida, ou seja, caso seu cão volte a comer as fezes com mais frequência do que anteriormente.

Agora que falamos bastante das causas, discorreremos um pouco sobre os tratamentos disponíveis atualmente.

COMO TRATAR A COPROFAGIA

Um estudo conduzido com 632 tutores de cães coprofágicos concluiu que impedir o acesso às fezes é a forma mais eficaz de evitar a coprofagia. Das técnicas utilizadas para tratar esse comportamento, as mais certeiras envolvem o tutor. Isso sugere que a coprofagia é mais motivada pelo ambiente do que por questões de saúde do cão. Um outro estudo comparou o uso de duas ferramentas para o tratamento da coprofagia: coleira de citronela e punição sonora. Em ambos os casos, o comportamento diminuiu, porém voltou a acontecer com o decorrer do tempo.

Salientamos aqui que essas ferramentas, assim como outras formas de inibir o comportamento (dar uma bronca, por exemplo) não devem ser utilizadas sem orientação de um profissional qualificado para tal, pois ele conseguirá avaliar a melhor forma de conduzir cada caso. Às vezes, para o tutor, ele está punindo o cão, porém, pode ser que do ponto de vista do animal, isso seja um grande reforçador. Ou seja, a intenção de punir pode, na verdade, apenas se passar por atenção e isso pode piorar ainda mais o comportamento. Ou ainda, o uso de um inibidor pode, inclusive, fazer com que o cão comece a ingerir fezes escondido, sem que o tutor sequer saiba o que está ocorrendo.

A coprofagia, assim como qualquer outro distúrbio apresentado pelos pets, deve ser analisada sob muitos aspectos. É prudente avaliar o histórico, o ambiente, os hábitos, a rotina de exercícios e brincadeiras, além da consulta com o veterinário. Depois de todo esse conjunto analisado, alguns tratamentos são indicados: o primeiro deles é estabelecer uma rotina de exercícios e enriquecimento ambiental.

Além disso, é importante o tutor não dar atenção às fezes do cão e recompensá-lo pelo acerto longe do local onde ele defecou, antes que ele sequer pense em ingerir as fezes. Ou seja, o seu pet está terminando de defecar no local designado para tanto, portanto, você deve o chamar ao seu encontro com um petisco bem gostoso na mão. Quando ele chegar, recompense-o e o distraia. Somente depois que ele não estiver mais interessado nas fezes, vá lá e o retire, longe da vista dele.

Além disso, em alguns casos, é preciso fazer um tratamento em conjunto com o veterinário, que pode propor a utilização de algum medicamento (pela experiência de alguns adestradores, a associação de alguns medicamentos que tornam as fezes não palatáveis pode ser eficaz). Uma outra dica é oferecer mamão, que contém papaína, uma enzima proteolítica que digere proteína. Também com a orientação conjunta do veterinário, esse profissional pode orientar quanto à melhor forma de manejo da alimentação do cão.

Em nossas buscas, encontramos um estudo bastante interessante, o qual associou a coprofagia com a ingestão de "Dalium" (leguminosas). De acordo com a pesquisa, chimpanzés buscavam as sementes desses alimentos nas próprias fezes e ingeriam novamente. Por outro lado, a coprofagia não foi associada com o consumo de "irvingia" (manga africana).

E OS PRODUTOS DE GOSTO AMARGO? FUNCIONAM MESMO?

Alguns adestradores e veterinários indicam o uso de produtos de gosto amargo aplicados diretamente nas fezes, para impedir que ele as coma. Mas funciona mesmo? Pela experiência que temos, em alguns casos funciona (como nos casos de cães mais sensíveis), porém, vemos que quando o tutor pára de utilizar o produto, o cão volta a comer as fezes. Talvez porque o problema de base (enriquecimento, adestramento e atividades físicas) não tenha sido solucionado. Também vemos que alguns cães são resistentes a todos os produtos que existem no mercado, não parecendo se incomodar com nenhum deles e comendo as fezes de qualquer forma. Os mais glutões entram neste grupo, por exemplo.

CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS

No decorrer desse texto, vimos que a coprofagia pode ser um comportamento natural em algumas espécies, inclusive nos cães. Aos olhos humanos, esse hábito pode ser desagradável, porém, podemos pensar que para os cães pode ter diversas causas, inclusive evolutivas.

Em outras espécies, parece que a coprofagia está associada a ingestão de determinadas sementes, no intuito de complementar a sua dieta, como mostra o estudo com chimpanzés.

Ainda assim, não devemos deixar de lado outras causas possíveis, tais como estresse, tédio ou até mesmo ter um cão mais glutão. Também vimos que existem mecanismos eficazes para amenizar, extinguir ou ao menos deixar de reforçar o comportamento coprofágico.

Em todos os casos, o ideal é analisar o contexto de vida de cada animal e entender que alguns comportamentos podem ser mais interessantes do que pensávamos e, talvez sob outra ótica, não tão ruins assim como alguns podem achar.

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