CIÊNCIA ANIMAL!

NOVOS NEURÔNIOS ATRAPALHAM A MEMÓRIA

por Por Tatiana Moreno, Adestradora e Membro do Grupo de Estudos Científicos
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Ao longo da vida, o cérebro dos seres humanos, ratos, cães e outros mamíferos passa por um processo conhecido como neurogênese: criação de novos neurônios. Essa atividade auxilia a capacidade de aprendizado de novas informações e acontece com maior frequência enquanto os indivíduos ainda são jovens, diminuindo seu ritmo com o passar dos anos. Uma das regiões do cérebro onde a neurogênese mais ocorre é o hipocampo, área responsável pela formação da memória.

Estudando sobre o assunto, um grupo de cientistas observou que esses neurônios recém-chegados, que ainda estão se adaptando e procurando criar conexões para armazenar novas informações, podem atrapalhar algumas memórias antigas, fazendo com que elas sejam perdidas. Isso explicaria, por exemplo, porque lembramos de poucas coisas da nossa infância ou até mesmo porque esquecemos certas coisas que já estudamos, mas que não utilizamos periodicamente.

A ciência explica

A fim de comprovar essa hipótese, alguns pesquisadores liderados pela neurocientista Sheena Josselyn, de Toronto, no Canadá, realizaram um estudo com o objetivo de testar a capacidade de memória de ratos jovens e adultos. Os animais foram colocados em gaiolas e tanto os jovens quanto os adultos aprenderam rapidamente, por meio de treinamento, que um determinado lado da gaiola dava choque, mas os pesquisadores observaram que os mais jovens esqueciam a nova informação quando ficavam apenas 1 dia sem treinar, enquanto que os mais velhos mantinham essa memória por semanas, mesmo sem treino. Isso quer dizer que os ratos mais jovens, com um ritmo mais intenso de renovação de neurônios, tiveram suas memórias do novo aprendizado “apagadas” em um curto período de tempo. Já os adultos, com uma neurogênese mais lenta, conseguiram reter a nova informação por mais tempo, sem a necessidade de treinos e reforços diários.

Para complementar o experimento, os cientistas ainda realizaram alguns testes e descobriram duas formas de manipular o processo de neurogênese dos ratos: o aumento da atividade física (exercícios aeróbicos), que estimula o crescimento de novos neurônios; e a injeção de determinadas substâncias que podem  aumentar ou diminuir o ritmo da neurogênese. Com isso, os pesquisadores conseguiram retardar o processo de neurogênese dos ratos mais jovens e acelerar o dos mais velhos.

Neurogênese X Modificação comportamental

Outros estudos (CASSILHAS, 2012; COTMAN, 2007; ERICKSON, 2010) também demonstraram que exercícios aeróbicos facilitam o aprendizado, já que estimulam a criação de novos neurônios e a absorção de novos dados, contanto que as novas lições estejam sendo reforçadas. Porém, as memórias mais antigas e as que não são ativadas com tanta frequência podem acabar perdendo seu espaço, pois o cérebro precisa realocar novos conhecimentos.

Assim, podemos compreender como é importante inserir a atividade física no dia a dia dos cães e como isso vai muito além de simplesmente gastar a energia dos animais para que eles fiquem mais calmos quando estão em casa. Além disso, é possível pensar também em novos formatos para treinos de casos mais complexos, como os de cães que passaram por algum tipo de trauma ou precisam tratar fobias.

Vamos juntar os pontos: será que é possível submeter um cão que é extremamente medroso por conta de um determinado trauma sofrido a um treino com bastante atividade física para, não só estimular seu aprendizado, mas também contribuir com sua neurogênese, permitindo que esse animal esqueça suas lembranças ruins? Reforçando todos os comportamentos que queremos manter e estabelecendo uma rotina de exercícios físicos poderíamos provocar o esquecimento de memórias passadas que não estão contribuindo para o bem-estar do animal?

Como dito anteriormente, os cientistas utilizaram diversas substâncias para manipular a neurogênese dos ratos e todas contribuíram de alguma forma, acelerando ou retardando o processo. Por isso, os pesquisadores consideram que as alterações realizadas foram resultado de um conjunto de fatores, ou seja, a combinação de um determinado medicamento com a atividade física ou com algum tipo de retrovírus, por exemplo. Entre as substâncias utilizadas, estão: a memantina, um medicamento utilizado no tratamento da doença de Alzheimer; a fluoxetina, nossa velha conhecida inibidora da recaptação de serotonina; o ganciclovir, utilizado no tratamento de infecções virais; e a temozolomida, medicamento para tratar tumores cerebrais.

Pensando nisso, será que futuramente algumas dessas substâncias poderão ser utilizadas com o intuito de ajudar cães traumatizados a esquecerem suas memórias ruins? O fato é que a ciência tem avançado muito com estudos que podem nos ajudar a enxergar cada vez mais razões e possíveis soluções para muitos comportamentos que os animais apresentam.

 

Leitura crítica: Alexandre Rossi

Preparação e revisão de texto: Juliana Sant’Ana, adestradora e membro do Grupo de Estudos Científicos da Cão Cidadão.

 

REFERÊNCIAS

AKERS, K.G. et al. Hippocampal neurogenesis regulates forgetting during adulthood and infancy. Science, v. 344, p. 598-602, 2014. Disponível em . Acesso em 02 out. 2016.

CASSILHAS, R. C. et al. Spatial memory is improved by aerobic and resistance exercise through divergent molecular mechanisms. Neuroscience, v. 202, p. 309-317, 2012. Disponível em . Acesso em 02 out. 2016.

COTMAN, C. W.; BERCHTOLD, N. C. Physical activity and the maintenance of cognition: Learning from animal models. The Journal of the Alzheimer's Association, v. 3, p. S30-S37, 2007. Disponível em . Acesso em 02 out. 2016.

ERICKSON, K. I. et al. Exercise training increases size of hippocampus and improves memory. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 108, n. 7, p. 3017-3022, 2010. Disponível em:  . Acesso em 02 out. 2016.

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