CIÊNCIA ANIMAL!

O que seu cão faz quando está sozinho?

por Grupo de Estudos Científicos - GEC - Cassia Rabelo, Claudia Terzian, Samantha Melo, Tatiana Moreno
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Sabemos o quanto os cães têm sido cada vez mais considerados e tratados como integrantes de nossas famílias. Cada vez mais, dividem o interior das casas e apartamentos, compartilham o sofá, dormem dentro dos quartos e até nas camas, alguns recebem comida à mesa durante as refeições de seus tutores. Uma convivência que traz benefícios e muitas alegrias para ambas as espécies!

Por outro lado, o cotidiano de grande parte dos tutores, especialmente os que vivem em grandes metrópoles, implica numa rotina repleta de afazeres e compromissos, que muitas vezes implica em deixar os cães sozinhos durante muitas horas do dia. E o quanto será que esta realidade afeta o bem-estar dos cachorros? Será que podemos fazer alguma coisa para amenizar eventuais efeitos adversos?

Vamos aqui tratar justamente de um distúrbio comportamental cada vez mais conhecido, que é denominado na ciência do comportamento animal como ansiedade por separação ou síndrome da ansiedade por separação. Esse distúrbio consiste nos comportamentos oriundos do estresse gerado quando o cão não consegue lidar com o distanciamento daqueles que compõem seu grupo social (no caso, seus tutores).  
 

1 - AFINAL, O QUE É A ANSIEDADE POR SEPARAÇÃO?

Por definição, ansiedade por separação é um estresse severo que ocorre quando um indivíduo é separado de seu grupo; ela pode ocorrer em diversos animais sociais. Porém, em cães, esta terminologia costuma designar de forma específica os efeitos maléficos que a separação do tutor gera no animal.

Nos dias atuais, um número cada vez maior de cães tem sido deixado sozinho nas residências, muitas vezes por longos períodos e em ambientes restritos e empobrecidos de atividades que se adequem às suas necessidades comportamentais. Tais fatores podem predispor os cães ao surgimento de sintomas relacionados à ansiedade por separação.

Segundo uma extensa revisão bibliográfica, nas últimas quatro décadas a ansiedade por separação foi o distúrbio comportamental identificado em cachorros mais discutido em trabalhos científicos. Mas é importante mencionar que, apesar dos inúmeros estudos, muitos elementos avaliados na ansiedade por separação em cães, como sua etiologia, tratamento e formas de prevenção, ainda permanecem inconclusivos.
 

2 - SINTOMAS DE ANSIEDADE POR SEPARAÇÃO

Um estudo indicou que dentre os sintomas normalmente mais relacionados à ansiedade por separação, os tutores relataram a ocorrência de vocalização excessiva, destruição de objetos e ambientes e agitação. Além desses sintomas, ficar apático ou sem interesse por nenhuma atividade podem também ser considerados indícios de ansiedade por separação. Mas, neste caso, a informação costuma não chegar aos especialistas, pois esse comportamento (como por exemplo, ficar dormindo o tempo todo enquanto sozinho) não é considerado problemático e, muitas vezes, nem sequer é percebido pelos tutores, embora possa comprometer o bem-estar do animal e requerer uma avaliação mais minuciosa.

 

3 -  E A RELAÇÃO DE APEGO, PODE INFLUENCIAR?

As relações de apego são um componente necessário para se viver em um grupo social, pois ajudam a manter os membros desse grupo unidos. O apego aos pais ou descendentes ajuda na proteção contra predadores e manutenção do suprimento de recursos. Assim, a resposta ao estresse da separação é adaptativa, tanto em animais quanto em humanos.

Estudos já feitos com macacos e também com bebês sugeriram que um apego seguro à figura dos pais ajuda os bebês a mediarem as respostas ao estresse, o que pode ser parte do que está ocorrendo com os cães com ansiedade por separação. Mas esses cães podem ter um tipo diferente de relação de apego com seus tutores, ou seja, esta síndrome seria, na verdade, uma resposta de apego disfuncional.

Um estudo identificou que filhotes de cachorros com 10 semanas de idade, quando inseridos em um ambiente novo, eram mais propensos a manter uma relação social com um ser humano do que procurar por comida. De fato, sob condições de teste, eles pareciam estar mais interessados em manter essa relação com os seres humanos do que com suas próprias mães.

Supõe-se que o hiper apego do cão com o dono é fundamental nesse problema comportamental, porque muitos daqueles com ansiedade por separação tendem a buscar um contato muito próximo dos tutores enquanto estes estão em casa (aquele cachorro que é a “sombra” do dono). Por outro lado, evidências sugerem que os cães sem ansiedade por separação também podem ficar frequentemente perto dos tutores. Um estudo comparou o apego ao tutor entre cães com e sem o distúrbio, mas não encontrou diferença significativa de apego entre os dois grupos de cães. Já outra pesquisa sugeriu que existem diferentes estilos de apego dependendo do cão, que são influenciados por vários fatores, tais como genética, experiências prévias e manejo.

Numa outra pesquisa feita por veterinários americanos, verificou-se que cães com ansiedade por separação tinham de 3 a 5 vezes mais chances de seguir seus tutores pela casa e cumprimentá-los excitadamente por mais de 2 minutos. É importante notar, no entanto, que essa diferença pode não refletir uma excessiva tendência de apego dos cães com ansiedade por separação em relação ao tutor, mas sim refletir relações disfuncionais de apego que podem estar relacionadas com outros problemas de comportamento.

Buscando também evidências sobre o tipo de vínculo que une cães e tutores, um estudo investigou a relação entre perfil de apego dos tutores e a conexão dono-cão. Foram encontradas diferenças de comportamento em cães com tutores muito presentes e cães com tutores inseguros/mais relaxados. No experimento, vários cães foram colocados numa sala desconhecida, apresentados a um homem estranho e submetidos a três episódios curtos de separação/reunião com o dono. A conclusão foi de que cães cujos tutores eram mais apegados apresentavam menos comportamentos desejáveis (como interação com o estranho) e mais hábitos indesejáveis (arranhar a porta, por exemplo).

Assim, embora pesquisas recentes tenham ajudado a esclarecer diferentes aspectos do tipo vínculo canino-humano, fica evidente a importância de melhor compreender a natureza multifatorial dessa relação e que mais estudos são necessários sobre esse assunto. Entender como o apego desempenha um papel no desenvolvimento da ansiedade por separação, bem como modificar o relacionamento entre cães e seus tutores, de acordo com esse papel, pode ajudar a prevenir que esse distúrbio se torne um problema em cães que são mais suscetíveis.  

Portanto, os estudos não apontam claramente para um consenso sobre o tipo de apego (ou mesmo se existiria um apego excessivo) entre cães e tutores como sendo fator de risco para ansiedade por separação. Mas, de qualquer maneira, é importante que o vínculo que desenvolvemos com os cães seja sempre norteado por uma relação segura, previsível e estável, o que possivelmente os ajudará a lidar melhor com os períodos de solidão.

 

4 - OUTROS FATORES PREDISPONENTES

Pesquisadores já testaram se algumas condições de fobias e ansiedade por separação poderiam estar relacionadas e encontraram uma alta correlação, principalmente entre ansiedade por separação e fobias a barulhos e a tempestades. Segundo Flannigan, quase metade dos cães testados com ansiedade por separação também apresentaram fobia por barulhos.

Outro estudo que buscou evidenciar fatores de risco para ocorrência de ansiedade por separação, identificou que cães vivendo com um único adulto humano foram aproximadamente 2,5 vezes mais propensos a apresentar ansiedade por separação do que cães vivendo com várias pessoas na mesma casa.  Além disso, cães não castrados foram 1/3 mais propensos a apresentar esta síndrome do que cães castrados.

Mudanças recentes na rotina da família também podem ser um importante fator predisponente, como por exemplo: divórcio; ausência mais frequente de uma pessoa da casa após um longo período com o cão (após férias ou licença saúde, por exemplo); mudança de residência; aumento de frequência de viagens do(s) tutor(es); falecimento de outro cão ou pessoa da família; nascimento de um bebê; diminuição das atividades físicas; e confinamento.

Por outro lado, diversos fatores parecem NÃO estar associados a uma maior incidência de  ansiedade por separação:

  • Sexo do cão: mesmo considerando que alguns autores tenham encontrado maior frequência de ocorrência dessa síndrome em machos;

  • A idade na qual o cão foi adquirido: acreditava-se que a separação precoce do filhote da ninhada e da mãe poderia ser um fator predisponente. No entanto, embora esta informação seja comum entre vários especialistas em comportamento, ela não foi demonstrada por nenhum estudo. A prevalência de ansiedade por separação em filhotes separados da ninhada com menos de 6 semanas de idade não foi diferente do que aqueles separados com mais de 6 semanas;

  • Presença de outros animais de estimação em casa, sexo do tutor e ter pelo menos um dono anterior;

  • Permitir que o cão durma na cama do tutor ou ganhe alimento da mesa.

Vários estudos revelaram que os cães que foram submetidos ao adestramento para obediência tiveram menor índice de ansiedade por separação se comparados a cães que não fizeram esse treinamento. Mas não podemos afirmar que haja uma correlação de causa e efeito entre as duas coisas, já que os tutores podem ter buscado o adestramento por algum outro motivo.

 

5 - COMO TRATAR A ANSIEDADE POR SEPARAÇÃO?

O tratamento inclui mudanças no ambiente onde o cão vive, além de estimular a independência do animal para que este possa lidar melhor com situações onde se veja sozinho.

Uma das medidas é orientar os tutores para que a interação com o cão seja iniciada por eles e não pelo cão ao tentar iniciar essas interações, ignorando assim comportamentos de busca de atenção constante pelo cão. Um outro ponto consiste em dessensibilizar o “ficar sozinho”, aumentando gradualmente o tempo que o tutor permanece fora do ambiente. Essas saídas durariam inicialmente apenas alguns segundos e evoluiriam, progressivamente, para alguns minutos ou tempos ainda maiores, dependendo do estado em que se encontre o cão.

Outra medida importante é enriquecer o ambiente com atividades que possam ser motivadoras para o cão quando estiver sozinho, que incluem oferecer brinquedos que liberam comida e deixar no local algum objeto que contenha o cheiro dos tutores, como uma camiseta usada, que ajudará os cães a sentirem, através do olfato, a presença daquela figura de referência. Além disso, cessar com toda e qualquer punição caso se encontre algum objeto destruído ao retornar para casa é outra medida que pode ser tomada pelo tutor.

O protocolo de modificação comportamental acima mencionado já foi testado em um estudo realizado com cães que apresentavam ansiedade por separação e o resultado mostrou uma melhora considerável no comportamento desses cães.  

Além disso, o tratamento farmacológico para reduzir o nível de ansiedade do cão também é indicado em alguns casos (especialmente os mais graves), sob prescrição e acompanhamento do médico veterinário. Adicionalmente, um estudo já mencionou que tutores de cães que podem ser propensos a desenvolver ansiedade por separação devem ser orientados a agir de forma consistente e confiável em relação a limites, liberdade e interações com seus cães no dia a dia da convivência entre eles.

Num artigo bastante reflexivo, o autor questiona a validade de orientações como as de dar “pistas” de partida quando o tutor não sairá de casa ou mesmo a prática de retirar essas pistas como parte do tratamento. Segundo o pesquisador, inúmeros artigos demonstraram que um ambiente imprevisível pode causar mais medo e ansiedade do que um ambiente previsível, sugerindo que algumas pistas de partida sejam mantidas. Nesse sentido, por exemplo, um sinal na porta quando o tutor ficar determinado tempo fora de casa e outro sinal diferente para quando estiverem sendo feitos os treinos de modificação comportamental podem ajudar o cão a saber o que vai acontecer em cada situação.

Finalmente, todas as medidas acima podem apresentar a base para novas abordagens terapêuticas, lembrando que é sempre importante avaliar cada caso individualmente, pois vários fatores podem interferir no resultado.

Com base em tudo que foi visto acima, até agora, o gerenciamento do problema consiste basicamente em controle ambiental, treino para mudança de comportamento e medicação. Com base nos resultados, novas abordagens terapêuticas podem ser desenvolvidas, o que inclui também um maior autoconhecimento do tutor, ou mesmo a modificação de seus modelos internos de apego, procurando integrar psicoterapia e terapia de modificação comportamental dos cães.

Tudo isso para, de forma consistente, buscar uma maneira de melhorar o bem-estar de um cão que esteja sujeito aos deletérios efeitos que a ansiedade por separação possa ocasionar em sua qualidade de vida.

 

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