CIÊNCIA ANIMAL!

Pílulas de “sujeira canina” para grávidas e recém-nascidos!

por Claudia Terzian, Membro do Grupo de Estudos Científicos
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Pílulas de “sujeira canina” para grávidas e recém-nascidos!

Por Claudia Terzian, membro do Grupo de Estudos Científicos da Cão Cidadão.

 

Já se sabia...

Um recente estudo da Universidade de Alberta confirmou o que já sabíamos: os bebês de famílias que possuem animais de estimação – cães em 70% dos casos – apresentam níveis mais altos de dois tipos de micróbios associados a riscos menores de doenças alérgicas e obesidade. O resultado do estudo é baseado em duas décadas de pesquisas que confirmam  que as crianças que crescem com cães têm taxas mais baixas de asma.

Como isso ocorre?

A equipe da Dra. Anita Kozyrskyj, uma das responsáveis pelo trabalho, analisou amostras das fezes de 804 crianças de 3 cidades canadenses diferentes (Edmonton, Vancouver e Winnipeg),  entre os anos de 2009 e 2012, e verificou que tanto o contato da gestante com animais de estimação quanto o do bebê até os 3 meses de idade aumentou a abundância de duas bactérias no organismo dos indivíduos, a Ruminococcus e a Oscillospira, que estão associadas  à redução das alergias infantis e da obesidade, respectivamente.

Acredita-se que a exposição a essas bactérias nessa fase de desenvolvimento pode ajudar a estabelecer uma imunidade precoce, embora os pesquisadores não tenham certeza se isso ocorre por conta das bactérias existentes nos nossos amigos peludos, que podem estar em seus pelos e nas patas, ou por transferência, quando os humanos tocam os animais de estimação.

Essas bactérias são constituintes naturais da microbiota intestinal de lactentes saudáveis?, mas se encontram? em níveis severamente baixos em crianças desnutridas. O estudo comparou os níveis dos micróbios das fezes em cenários diferentes: sem a exposição aos pets, com exposição apenas durante a gravidez e com exposição durante a gravidez e logo após o nascimento. O resultado revelou que houve troca de microbiota saudável mesmo nos casos em que apenas a mãe conviveu com o cão durante a gestação.

O estudo mostrou também que a imunidade das crianças aumentou inclusive em três situações de nascimento já conhecidas (e estudadas pela Dra. Kozyrskyj em trabalho anterior) por reduzir a imunidade do bebê: quando se opta pela cesariana em vez do parto vaginal, quando a mãe faz uso de antibióticos durante o parto e quando há falta de amamentação.

Mais benefícios...

Há outros benefícios que a convivência com pets pode trazer aos recém-nascidos. As bactérias do gênero Oscillospira estão negativamente associadas à doença inflamatória intestinal pediátrica. Além disso, o estudo de Kozyrskyj sugere que a presença de animais de estimação em casa reduz a probabilidade de transmissão de GBS vaginal durante o parto (infecção por Estreptococos do grupo B) que provoca pneumonia em neonatos. Normalmente, previne-se essa transmissão com o uso de antibióticos durante o parto.

Em bebês nascidos de parto vaginal, constatou-se que a exposição pré-natal a animais de estimação reduziu a carga de Estreptococos fecal, o que não poderia ser explicado por irmandade, estado de amamentação ou por outras variáveis. De acordo com um artigo recente de McCloskey, tal exposição tem sido associada à redução do risco de doenças cardiovasculares em bebês nascidos de mães infectadas com GBS durante a gravidez.

Por fim, em um estudo anterior, observou-se uma forte ligação entre os baixos níveis de Ruminococcaceae e a sensibilização alimentar durante o primeiro ano de vida da criança, já que as bactérias Ruminococos presentes no intestino produzem a ruminococina A, uma bacteriocina que pode inibir várias espécies patogênicas de Clostridium.

O futuro

Esse conjunto de estudos fornece sólidos argumentos para afirmarmos que o contato da mãe com cães e gatos desde a gestação e posteriormente do recém-nascido pode trazer grandes benefícios para a saúde do bebê. Dessa forma, podemos reforçar que não é preciso, nem recomendado, doar o animal  por conta de uma gestação ou do nascimento de uma criança. Também não há necessidade de temer o contato do pet com o bebê, por causa das bactérias caninas.

É muito cedo para concluirmos como essa descoberta vai influenciar o futuro, mas Kozyrskyj não exclui o conceito de "cão em uma pílula" como uma ferramenta preventiva para alergias e obesidade. "Não seria exagero a indústria farmacêutica tentar criar um suplemento desses microbiomas, assim como foi feito com probióticos", diz a pesquisadora.

Preparação e revisão de texto: Juliana Sant’Ana, adestradora e membro do Grupo de Estudos Científicos da Cão Cidadão.

Referências:

DABARD, J. et al. Ruminococcin A, a New Lantibiotic Produced by aRuminococcus gnavus Strain Isolated from Human Feces. Applied and environmental microbiology, v. 67, n. 9, p. 4111-4118, 2001.

DOGRA, Shaillay et al. Dynamics of infant gut microbiota are influenced by delivery mode and gestational duration and are associated with subsequent adiposity. MBio, v. 6, n. 1, p. e02419-14, 2015.

MCCLOSKEY, Kate et al. Perinatal microbial exposure may influence aortic intima-media thickness in early infancy. International journal of epidemiology, p. dyw042, 2016.

STOKHOLM, Jakob et al. Living with cat and dog increases vaginal colonization with E. coli in pregnant women. PLoS One, v. 7, n. 9, p. e46226, 2012.

TUN, Hein M. et al. Exposure to household furry pets influences the gut microbiota of infants at 3–4 months following various birth scenarios. Microbiome, v. 5, n. 1, p. 40, 2017.

YOUNG, Lesley. Pet exposure may reduce allergies and obesity. University of Alberta, 2017. Disponível em: . Acesso em 21 jun. 2017.

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